A nova economia da sustentabilidade

A nova economia da sustentabilidade

Reator ZEG Ambiental

Empresa brasileira, ZEG Ambiental, emula processo natural para transformar resíduos em gás sem gerar fumaça, cheiro ou qualquer outra partícula.

Jornal GGN – Empresa formada por brasileiros está por traz de uma tecnologia para transformar lixo em energia. Lançada há poucos dias, a ZEG, do Grupo Capitale, é responsável pela patente de um reator que promove a desintegração de matéria em instantes de segundo, transformando-a em gás sem lançar fora, como subprodutos, fumaça, fuligem, partículas ou cheiro. É apenas uma das inúmeras iniciativas que deverão aparecer daqui para frente, em cima das oportunidades abertas pela chamada geração distribuída.
Em entrevista para Luis Nassif, André Tchernobilsky, sócio-fundador de um dos braços da companhia, a ZEG Ambiental, explica como funciona:
“Imitamos a natureza. Ela decompõe os materiais orgânicos e os transforma em querogênio, que depois é transformado em óleo e gás. Só que esse processo demora milhões de anos, com sobreposição de camadas promovendo uma atmosfera com ausência de oxigênio. A gente faz exatamente isso, só que dentro de um reator”.
Para ter esse resultado, o reator trabalha com temperaturas acima de 1 mil graus, favorecendo a quebra da cadeia molecular do resíduo, transformando-o em gás sintético e limpo, que pode ser injetado diretamente no sistema de Geração Distribuída. “É como se você jogasse uma gota de água em cima de uma chapa quente. Ela evapora num instante de segundo. O que a gente faz é exatamente isso, deixamos as partículas de resíduo caírem num núcleo aquecido, gaseificadas num instante de segundo”.
Dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) revelam que a população do país produz, em média, 79,9 milhões de toneladas de lixo por ano. Por dia, cada habitante urbano chega a produzir um quilo. Para se ter ideia da dimensão, todo o volume produzido anualmente no Brasil poderia ocupar uma área equivalente a 206 estádios do Morumbi, mas hoje boa parte é depositada em algum dos 3,3 mil lixões ou aterros irregulares espalhados território afora.
“Estamos falando de uma gama de 3,3 mil locais com potencial e que hoje não têm nenhum tipo de qualidade [técnica] na disposição final [do lixo]”, continua o executivo. Por não serem espaços ambientalmente adequados na acomodação dos resíduos descartados, os lixões são verdadeiros polos de contaminação do solo, ar, água além de proliferadores de doenças e pragas.
Ainda, de acordo com o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), perto de 30% de todo o lixo produzido no Brasil tem potencial de reciclagem, entretanto, apenas 3% de fato é reaproveitado. A ZEG, portanto, amplia as possibilidades para as políticas públicas hoje restritas à ampliação do número de aterros sanitários controlados, assim chamadas as áreas previamente preparadas e que não permitem que o chorume (líquido resultado da decomposição do lixo) contamine os lençóis freáticos.
Criador da tecnologia  
A produção de energia a partir do lixo não é novidade e o biogás, gerado da fermentação e decomposição de matéria orgânica em aterros, é a forma de mais convencional de aquisição de algum lucro energético neste campo. Mas Tchernobilsky explica que o modelo desenvolvido pela empresa aumenta o aproveitamento:
“A gente consegue recuperar até 90% do poder calorífero superior dos resíduos, sendo que 10% é direcionado para a recirculação, alimentando termodifusor aquecido do reator”.
Mas de onde surgiu essa tecnologia? Na verdade, já existem milhares de plantas espalhadas pelo mundo que transformam resíduos orgânicos ou não orgânicos em fonte de energia. As tecnologias são divididas em dois modelos: bioquímicos e termoquímicos. Dessa última categoria, subdividem-se três tipos de processos: incineração (geradora de gases tóxicos); gaseificação, também geradora de gases tóxicos, porém produzindo como subproduto o alcatrão; e, por último, a pirólise, a mais sustentável, em termos ambientais, gerando como óleo, gás e biocarvão.
A vantagem da ZEG, explica Tchernobilsky é dominar hoje uma tecnologia melhorada da pirólise. Ele conta que o processo foi desenvolvido por Jean Benoit, cientista ex-chefe de projetos da Agência Espacial Francesa.
“Ele era responsável por toda a parte de propulsão de foguetes e desenvolveu um termodifusor que é o nosso reator. Sua grande sacada foi criar um sistema de injeção de combustível, de uma maneira muito eficiente e em uma matriz de geração de energia”, conta.
Mas Tchernobilsky colaborou para tornar a tecnologia mais dinâmica no mercado. Ainda quando gerente global de projetos no centro de tecnologia de Luxemburgo, da Delphi Automotive, o brasileiro teve contato com o filho do cientista, Marcel, ex-técnico de aviões da Força Aérea Francesa.
“Fizemos uma reengenharia para deixar o reator flexível, móvel, ainda mais eficiente, implementamos inteligência artificial, educação cognitiva para cada reator aprender com outro reator, sempre aumentando sua disponibilidade operacional. Praticamente, embarcamos tecnologia automotiva num reator que é altamente eficiente”. O nome dado para o sistema é FDS (Flash Dissociatin System).
Para o sócio-fundador do Capitale e presidente da ZEG, Daniel Rossi, a tecnologia se tornou imprescindível para o grupo ampliar a atuação.
“Temos um projeto que acaba tendo uma correlação entre as unidades de negócio. Por exemplo, a gente chega em um aterro sanitário para dar uma solução ambiental, social e de geração de energia, mas eu também consigo melhorar a eficiência do aterro quando eu separo o orgânico do que não é orgânico. O orgânico eu aterro, e o que eu aterro consigo decompor e gerar o biogás, o metano que é fonte de energia elétrica. O que sobrou disso, eu construo um reator colocando nossa tecnologia da ZEG Ambiental”.
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Uma fábrica fora do Brasil
A Capitale investiu na construção de uma fábrica no Chile com capacidade para produzir 70 reatores por ano. A escolha se deu por diversos fatores como maior atratividade em termos de impostos e leis trabalhistas. Tchernobilsky também conta que, no início do projeto, 2014, o Brasil iniciava uma fase difícil, por isso escolheram um país “mais estável”.
“Só que a principal característica que fez a gente levar a fábrica para lá foi um aspecto técnico: o Chile tem épocas do ano em que faz 35 graus de dia e menos 10 graus de noite, e como nosso equipamento é um difusor térmico, tem um estresse bastante alto para fazer teste de durabilidade, falha prematura etc. Então, a gente precisava operar esse reator em condições extremas de temperatura”, completou.
Mas isso não significa deixar o Brasil de lado, como dito no início da matéria, o país tem grande potencial mercadológico e o foco da ZEG são os municípios com até 50 mil habitantes que representam 91% do total de 5.561 municípios. A maior parte, não conta com orçamento suficiente para acomodar o lixo em aterros sanitários adequados.
“Nosso modelo de negócio seria através de uma PPP [Parceria Público-Privada]. A gente entra com 100% do investimento, em troca da disposição do acesso ao lixo durante 30 anos, e o benefício para a prefeitura é a redução no custo da taxa de disposição final do lixo, em vez de ficar pagando caminhão para mandar para um aterro sanitário com distância de até 100 quilômetros do município, ou pagar pela construção de um aterro sanitário. Somos muito mais competitivo para pequena escala”, defende.
A Capitale se especializou em projetos de energia renovável em quatro frentes: energia solar fotovoltaica, energia hidráulica de pequeno porte, biogás e a fonte de tratamento de resíduos e geração de energia, e seu foco não é atuar nos grandes leilões públicos, mas sim na Geração Distribuida e grandes consumidores.
Competitividade
Para Rossi, em termos de competitividade, o biogás dos aterros sanitários ainda sai na frente, por conta da escala de plantas de aterros e porque sua produção é praticamente natural.
“A segunda fonte que considero mais competitiva é a fotovoltaica, porque é uma fonte que está em desenvolvimento muito acentuado no Brasil, muitos players nacionais e internacionais querendo investir em projetos no país, e é uma fonte que vai tender a ganhar muito mais escala, aí o custo vai tender a cair um pouco mais. Também tenho muito mais possibilidade de desenhar projetos fotovoltaicos do que de aterros sanitário, do que o ambiental e do que o hidráulico”, explicou.
A terceira tecnologia mais competitiva pondera que é a da ZAG Ambiental, na transformação de resíduos em fonte de energia. “Porque ela tem duas fontes de receitas, mas tem um desenvolvimento, um processo operacional para construir que é um pouco mais lento para entender o resíduo que vai ser tratado e o que será devolvido em termos energéticos. Uma vez feito isso, é um projeto que é economicamente muito viável”.
O modelo padrão da estrutura do reator é capaz de converter até 50 toneladas de sólidos/dia e base seca em fonte de energia, explica Tchernobilsky,  lembrando que 50% do volume do lixo produzido no Brasil é umidade dos resíduos que é perdida no processo da pirólise. As dimensões do reator também ajudam na competitividade, podendo ser facilmente transportado dentro de um contêiner de 40 pés, ou 12 metros de comprimento, segundo o executivo.
O primeiro projeto no Brasil está sendo realizado com a Nexa, antiga Votorantim Metais, substituindo o uso de combustível fóssil (gás natural e óleo) por resíduos na produção mineral. Assim como papel e celulose, o setor mineral exige uso intensivo de energia elétrica, lembra Rossi, não por acaso os grandes consumidores estão na lista de clientes que o grupo quer alcançar.
Produção renovável cada vez mais promissora 
“Vai haver uma grande onda em energia renovável no Brasil, oriundo de capital local e internacional”, prevê o CEO da ZEG. Rossi destaca que, até o momento, todos os projetos tocados pelo Grupo Capitale foram com capital próprio, mas enxerga uma movimentação favorável em direção ao nicho que representam.
“O que nós já percebemos, e está acontecendo com muito volume, é uma procura para apresentarmos projetos que sejam economicamente e ambientalmente sustentáveis, e percebemos [essa movimentação de] fundos e parceiros locais, brasileiros e também organismos internacionais procurando bons projetos para que a gente possa criar essa economia circular positiva”.
Fonte: GGN
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